Entre a ansiedade e a abertura ao mistério

  • 04/09/2026
Entre a ansiedade e a abertura ao mistério
Entre a ansiedade e a abertura ao mistério (Foto: Reprodução)

Há uma diferença delicada entre viver antecipando o futuro e viver aberto ao que vem. Na ansiedade, nossa consciência parece abandonar o presente para habitar futuros imaginados. O “eu” tenta prever acontecimentos, calcular possibilidades, evitar perdas e preparar respostas para aquilo que ainda nem chegou. O amanhã torna-se uma preocupação experimentada hoje. Assim, paradoxalmente, na tentativa de controlar a vida, podemos deixar de vivê-la.

Outra postura existencial torna-se possível quando consentimos em permanecer no presente e reconhecemos que nem tudo o que nos acontece pode ser previsto, explicado ou controlado. Trata-se de uma abertura ao novo, ao inesperado, ao inimaginado. É uma abertura para o novo e para o desconhecido, ampliando uma existência mais autêntica e integrada. Quando essa postura é ativada em nós algo desperta para a abertura a mudanças, ressignificações e transformações.

Nesse horizonte, acontece uma passagem sutil do “eu” para o “me”. O “eu” deseja ser protagonista: articula, planeja, controla, interpreta e performa. Mas a vida também se apresenta de outra maneira, para muito além do protagonismo do “eu”, pois: algo “me” acontece. Algo chega a mim independente de nomeação, classificação, quantificação, qualificação, comparação ou encaixe em alguma categoria conhecida.

Essa abertura não significa passividade nem abandono da responsabilidade. Significa reconhecer humildemente os limites do controle e entregar-se relaxadamente para receber o novo que está a caminho. É permanecer inteiro diante do instante e permitir que a realidade também tenha iniciativa sobre nós. Não é o “eu” que irá resolver no hoje tudo que está no futuro. No agora, algo “ me” acontece como evento de graça.

Talvez viver plenamente seja justamente aprender essa confiança: não exigir que o futuro se torne conhecido antes de chegar, mas estar presente para recebê-lo à medida que chega. O mistério, então, deixa de ser ameaça a ser dominada e torna-se horizonte a ser descoberto. E o presente deixa de ser apenas passagem para transformar-se no lugar onde a vida, verdadeiramente, acontece.

____

Texto de Carlos José Hernández (psiquiatra argentino, doutor em medicina) e Clarice Ebert (psicóloga - CRP08-14-038, terapeuta familiar e de casais e mestre em teologia).

 

Clarice Ebert (@clariceebert) é psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online (individual, de casal e de família). Membro e docente de EIRENE do Brasil.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Quando a fé é usada para justificar o abuso

FONTE: http://guiame.com.br/colunistas/clarice-ebert/entre-ansiedade-e-abertura-ao-misterio.html


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

No momento todos os nossos apresentadores estão offline, tente novamente mais tarde, obrigado!

Top 5

top1
1. Bênçãos Que Não Têm Fim

Isadora Pompeo

top2
2. Se Eu Não Te Ouvir

Sarah Farias

top3
3. Raridade

Anderson Freire

top4
4. Bondade de Deus

Isaías Saad

top5
5. Quem É Esse?

Julliany Souza

Anunciantes